História da Revolução de 32

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OS ANTECEDENTES DA REVOLUÇÃO

CONSTITUCIONALISTA

No dia 24 de outubro de 1930 a Junta Governativa Provisória, composta pelos generais João de Deus Mena Barreto (General de Divisão), Augusto Tasso Fragoso (General de Divisão) e José Isaías de Noronha (Contra-Almirante), chegou ao poder, através de um golpe, sendo apoiada por muitos estados, sobretudo Minas Gerais. Neste dia Getúlio Vargas estava em Ponta Porã no Mato Grosso. O golpe de duplo efeito derrubou o presidente em exercício Washington Luis e impediu que assumisse o que foi eleito com 59% dos votos, contra 40%, ou seja, 1.100.00 contra 740.000, em média, na eleição de 01 de março daquele ano, Júlio Prestes de Albuquerque, ambos do Partido Popular Paulista (P.R.P), partido em oposição a agremiação política que pertencia Getúlio Vargas, a Aliança Liberal (A.L). No dia 3 de novembro de 1.930 Getúlio Dornelles Vargas foi elevado ao poder, não como presidente, foi como “chefe” do Governo Provisório. Após 41 anos de República o Brasil e os Estados sofreram um duro golpe, mas o desfecho também foi cruel, afinal, foi abolida a Constituição Era o inicio de um periodizado na História do Brasil chamada de Era Vargas (03/10/1.930 – 29/10/1.945) e fracionada em: Governo Provisório(03/10/1.930 -20/07/1.934), Governo Constitucional (20/07/1.934 -30/09/1.937) e Estado Novo (10/11/1.937 – 29/10/1.945). Parte da população paulista apoiou a Revolução ou Golpe de outubro de 1.930, estavam contentes com as promessas e os novos rumos da política nacional e dos Estados, afinal a crise de 1.929 havia arrasado a economia brasileira e a maior do país, a de São Paulo e, consequentemente toda a população amargurou prejuízos. O Partido Democrático (P.D.) tinha seus adeptos e fazia oposição ao P.R.P., logo concitaram seus partidários para apoiar a Revolução de 30, apoiando até mesmo os tenentistas, bem como sendo prometido à eles a governança paulista. Francisco Morato, o então presidente do P.D., estava sendo cogitado para a Interventoria do Estado Bandeirante, mas Getúlio Vargas, por pressão dos tenentistas, nomeou o Capitão João Alberto, um pernambucano que participou dos movimentos mais importantes do Tenentismo e desconhecido em São Paulo e das necessidades do Estado. Com a nomeação de um não paulista e militar, o povo de São Paulo viu-se preterido, igualmente alguns membros da oficialidade da Força Pública, pois a tropa estava infectava pelo movimento tenentista e necessitava extirpar esse mal de sua essência. Em 24 de outubro daquele ano Getúlio assinou o decreto que nomeou o coronel João Alberto Lins de Barros como Interventor Federal em São Paulo. No dia seguinte, já no Palácio do Governo de São Paulo, escolheu seu secretariado, foi de difícil consolidação, mas foi possível. Miguel Costa, um argentino que havia participado da Revolução de 1924 e comandado a Coluna Miguel Costa – Prestes e havia retornado do exílio na Argentina em 1930 para ser um dos comandantes no golpe de 1930, recebera a anistia e a patente de General. O agora, General Miguel Costa foi nomeado para um cargo que fora criado especialmente para assentá-lo ao poder em São Paulo. Foi colocado como Inspetor Geral da Força Pública, assumindo no dia 3 de novembro, mesmo dia da posse de Getúlio. Este cargo subordinava o comando da Força Pública de São Paulo, detendo poderes absolutos, mas mantendo como Comandante o coronel Joviniano Brandão. Por sua vez, a Legião Revolucionária de São Paulo (partido político de articulação dos tenentistas criado em novembro de 1930 e tendo seu nome mudado para Partido Popular Paulista em setembro de 1931), lançou seu programa, um longo documento escrito por Plínio Salgado e assinado pelo General Miguel Costa, presidente da Legião. O planejamento traçava à nação uma diretriz definida e clara em face dos problemas fundamentais do país, no dia quatro de março. Em suma, essa situação política tornou-se conhecida, através do escritor jornalista carioca, Vivaldo Coaracy como “O Caso de São Paulo”, termo utilizado para entender a problemática política de São Paulo entre os anos de 30 e 32. Mais do que os problemas de São Paulo, mais importante era o do Brasil, da soberania nacional que estava subjugada e era isso que os paulistas viam a falta de uma Constituição, de nossa Carta Magna, além da falta de autonomia de administração e um sentimento de invasão militar de seu território. No dia primeiro de março, ainda de 1.931, o Partido Democrático realizou um comício no Largo da Concórdia, no Brás. O comício e as manifestações eram um pedido da volta da Constituição, o mais rápido possível. Com a crise que se avolumava, talvez sem que todos soubessem onde poderia levar, Paulo Nogueira Filho (um dos líderes do P.D. e fundador do MMDC) anotou em suas preciosas lembranças: “Creio poder fixar com precisão esse momento em que consciência da defesa comum de Piratininga começou a exprimir-se de público. Era o São Paulo da guerra cívica que nascia.” Às oito horas do dia 28 de abril ficou acertada revolta que se iniciaria em alguns quartéis da Força Pública, esse levante contava com a adesão de elementos do P.D. e outros civis, inclusive com o apoio do então comandante da Força, o coronel Joviniano Brandão, um fervoroso adepto do movimento contra o governo de João Alberto, porém, foi demitido do cargo de Comandante Geral um dia antes do aprazado para a insurreição, o que levou o adiamento, em algumas horas, do levante que estava agendado para às oito da manhã. Então o QG, Centro de Instrução Militar, 5o, 6o e 7o BCP, foi dominado pelos revoltosos. Ainda sim tentaram o apoio do coronel demitido, Joviniano Brandão, o mesmo pediu o fim do levante, justificando-se que era melhor a paz “honrosa para todos”. Com a notícia se espalhando o desânimo vinha junto, mas, os revoltados não cediam, mantinham suas posições, mesmo com a iminente invasão dos quartéis por tropas leais ao Governo. Por volta das 14 horas do mesmo dia, o coronel Joviniano Brandão chega à porta do QG e faz o apaziguamento da situação, tanto para as tropas leais à Getúlio quanto aos revoltosos, pede a libertação dos prisioneiros e o levante é sufocado, quase que pacificamente. Esse evento ficou conhecido como “Abrilada”. A situação do país estava sendo cada vez mais agravada e o São Paulo se articulava para que tudo fosse normalizado e legalizado, não só por suas próprias aspirações, mas sim o da união. Vários pedidos por uma Constituição surgiam em todo o Brasil e as aclamações por liberdade e democracia era parte do dia-a-dia do brasileiro. No dia 25 de julho João Alberto é nomeado Chefe de Polícia no Distrito Federal e transmite a interventoria paulista para o Dr Laudo de Camargo. A opinião pública de vários Estados, e sobretudo a São Paulo, estavam excluídas das deliberações sobre os destinos do Brasil e de sua própria terra. Com o golpe tenentista e getulista de 1930, o Tenentismo e a Aliança Liberal também chegaram ao poder. Em São Paulo a situação democrática da política estava praticamente morta, só não estava de fato por conta da população paulistas que ainda resistia e que não havia apoiado o golpe de 1930. Na manhã do dia 28 o coronel Joviniano Brandão foi reformado pelo Interventor o Tenente João Alberto e que Miguel Costa, além de Inspetor Geral da Força Pública, foi naquele momento, nomeado Comandante da Força Pública, acumulando os dois cargos. No mesmo dia a Abrilada foi desencadeada, por volta das 12 horas. Além do Quartel General da Força Pública, que à época era localizado na esquina da Avenida Tiradentes com a Rua Ribeiro de Lima, o 5o, 6o, 7o Batalhão de Caçadores e o Centro de Instrução Militar iniciaram a revolta. Por volta das 14 horas o próprio Cel Joviniano ajudou a desmobilizar o levante, pacificamente. Mas o saldo de prisões foi alto, trinta e seis oficiais, quarenta sargentos, trinta componentes do batalhão-escola e cerca de duzentos entre cabos e soldados além de vários civis. Na ocasião, empastelados os jornais, Diário Nacional, A Platéa e O Povo. Exato um mês depois o General Isidoro Dias Lopes deixa o comando da 2a RM, espontaneamente, por convalescença, transferiu o comando ao coronel Manuel Rabello, pedindo, ao mesmo tempo, demissão do serviço ativo do Exército. Mas, deixou claro que não foi apenas por isso, ele havia sido preterido. Já no dia 1o de junho Manuel Rabello passa o comando da Região para o General Pedro Aurélio de Góes Monteiro. Em meio às manifestações da opinião pública que continuavam reiteradamente em sua campanha pró-Constituinte, o “Tenente” João Alberto pede à Getúlio Vargas que aceite a dispensa de seu trabalho como interventor, pois dizia querer se dedicar à vida particular e ocupar um cargo na empresa de seu amigo, Guilherme Guinle. De fato no dia 12 de junho, um domingo, através de um longo documento explanava os motivos de sua saída. Entre vários motivos, dizia ser vítima de perseguição, ter sido injustiçado e tentava explicar sua administração econômica que enfraqueceu o Estado paulista ainda mais do que havia com o Crash de 1929. Foram nove meses de Interventoria de João Alberto, que saiu do poder dizendo “Hoje sinto terminada a minha missão na nobre terra paulista”. Entre Getúlio Vargas e João Alberto ficou decidido que o tenentista deveria indicar um sucessor, este foi atrás do Dr. Plínio Barreto, que resistiu, mas acabou aceitando o cargo, chegando até a formar um secretariado, que foi aprovado por João Alberto. Contudo a Legião Revolucionária se manifestou e seu secretário geral emitiu um telegrama à Getúlio posicionando-se contra a indicação de Plínio, acusando-o de ligações partidárias que estavam contra a Revolução de 1930. Miguel Costa fez o mesmo, enviou documento à Vargas expondo seu ponto de vista, dizendo que Plínio Barreto na Interventoria de São Paulo seria uma vitória do Partido Democrático. Ambos iniciaram uma violenta campanha contra a posse de Plínio Barreto. No dia 25 de julho Plínio Barreto teve um comunicado seu publicado no jornal O Estado de São Paulo que desistira da interventoria, agradecendo os amigos pelo apoio e que para que um novo derramamento de sangue se iniciasse abria mão da administração pública. Pedindo, assim, que fosse transferida a indicação do cargo para o Dr. Laudo de Camargo. No mesmo dia João Alberto à Laudo de Camargo, então ministro da Justiça de São Paulo, cargo que ocuparia até o dia 13 de novembro de 1931, por pressão em que João Alberto exerceu em sua administração teve que entregar o cargo ao coronel Manuel Rabello. O jornal Honra ao Mérito chega ao fim, com esta terceira parte de um breve resumo dos antecedentes da Revolução de 1932, destacando alguns dos principais pontos ocorridos da grave crise política que abalou todo o Brasil e, sobretudo o Estado de São Paulo, que viviam um momento de caudilhismo. Os anseios podem ser explicados de forma abreviada da seguinte forma: A reconstitucionalização do país e a autonomia do Estado paulista. O juiz Laudo de Camargo era uma das esperanças de São Paulo, segundo anotou o General Euclydes Figueiredo, o magistrado era uma das esperanças de São Paulo, capaz de, por suas qualidades pessoais e por sua ponderação, reconduzir o grande Estado ao caminho da ordem, do trabalho e do progresso. Laudo de Camargo iniciou seu governo com prova de espírito de apaziguamento de que vinha imbuído, projetando e concedendo anistia à presos que se rebelaram ou que apenas eram suspeitos de ser contra o governo ditatorial. Sua deposição foi de forma traiçoeira, modus operandi da ditadura Vargas e do grupo miguelista. Ascendeu à interventoria o coronel Manuel Rabelo, assumindo a interventoria no dia 16 de novembro e causando mais descontentamento em São Paulo, além de potencializar a crise. O então ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, sofria duras críticas de seus conterrâneos paulistas e decide exonerar-se do cargo no mesmo tempo de Laudo de Camargo. Oswaldo Aranha, ministro da Justiça de Vargas assumiria também a pasta da Fazenda, acumulando os dois cargos. O coronel Manuel Rabelo também era o comandante da 2a Região Militar desde a saída do general Isidoro Dias Lopes, dia 28 de maio de 32. O cidadão Manuel Rabelo era um positivista de carteirinha, chegando até a adotar mudanças nos protocolos epistolares do Exército em São Paulo. Em janeiro de 1932, Manuel Rabelo continuava governando São Paulo mesmo sem um decreto que o nomeava houvesse sido publicado, tamanha desorganização e tirania de Getúlio. A falta de continuidade administrativa estava levando as finanças públicas paulistas ao caos. J. E.de Macedo Soares estimava em dois milhões de contos a dívida fundada do Estado, ao lado de uma dívida flutuante de 600 mil contos. Isso para uma arrecadação que caía, provocando déficits orçamentários anuais superiores a 200 mil contos. No dia 2 de janeiro os estudantes da Faculdade de Direito, Escola Politécnica, Faculdade de Medicina, Faculdade de Farmácia e Odontologia e Mackenzie fundavam a Liga Paulista Pró- Constituinte, que atuaria ao lado de lideranças, organizações e o povo paulista. No 15, o Partido Democrático rompe oficialmente com o governo provisório e unem-se aos perrepistas, ao Partido Republicano Paulista, que por sua vez, no dia 19 sai do silêncio e publica um manifesto “ao povo paulista”, mostrando atividade e trabalho em prol da constitucionalização e autonomia.

Na segunda-feira de 25 de janeiro de 1932, às 15 horas, debaixo de uma forte chuva, um comício monstro em comemoração ao trecentésimo septuagésimo oitavo aniversário da cidade de São Paulo e que tinha com foco importante o de conferenciar a população e os líderes da causa paulista. A Associação Comercial pediu gentilmente que o comércio, se possível, não fosse aberto naquele dia, caso abrisse, somente até às 12 horas, o 25 e janeiro ainda não era um feriado municipal. Praticamente ninguém abriu as portas e os que abriram fizeram como o combinado para chegar a tempo de participar daquela que viria a ser a maior parada cívica até então.

A união do Partido Democrático e o Republicano Paulista é organizado e se fundem, fazendo surgir a Frente Única Paulista, em prol dos altos interesses do Estado. Esta forte organização pôde mudar os rumos de São Paulo, poucos meses depois.

Exatamente no dia 7 de março Pedro de Toledo é nomeado Interventor em São Paulo. Seria mais um títere de Getúlio, pois além de estar afastado da política paulista há mais de 20 anos, teve a infeliz atitude de manter o mesmo secretariado de seu antecessor, o que ainda manteria São Paulo sem seus próprios governantes, mantendo-nos como uma presa de guerra. Na tarde de 23 de maio um novo secretariado era escolhido por Pedro de Toledo, atendendo aos anseios da população, que clamava em comícios e passeatas, cobrando do Interventor que trocasse todos os secretários do Estado por homens de confiança do povo, estes homens eram da Frente Única, e assim o velho embaixador fez. As hostilidades do dia 23 de maio de 32, resultou na morte de quatro jovens. No próprio dia 23, três morreram imediatamente e mais um dia 28, respectivamente, Mário Martins de Almeida de trinta e um anos, que residia em Sertãozinho, interior de São Paulo, mas não conseguimos encontrar o endereço exato.

Naquele sábado estava na capital em visita aos pais e aderiu ao movimento que tinha intuito de empastelar a sede do P.P.P. Euclydes Bueno Miragaia de vinte e um anos de idade, morava no Brás, exatamente na Rua Gomes Cardim, número 74. Antonio de Camargo Andrade, residente à Rua Caio Prado, número 43, logradouro quase na esquina com a Rua da Consolação. Dráusio Marcondes de Souza, filho do farmacêutico o Ten EB Res Manuel Octaviano Marcondes de Souza, de quatorze anos de idade, moravam no número 424 da Rua Oscar Freire. Orlando Alvarenga, um mineiro de trinta e dois anos de idade que morava na Rua Maranhão, 19, mas que nada tinha haver com as manifestações de 22 e 23 de maio, fora atingido por um tipo de fuzil nas costas, no momento em que passava pelo local e observava a multidão e os tiros que partiam de dentro do prédio. Alvarenga esteve internado na Santa Casa, no quarto de número oito ao lado do quarto de Dráusio número nove. Convalescendo em seu leito contou ao pai de Dráusio, o Ten Manuel Octaviano, que “nada tinha com o movimento, do qual saíra ferido por mera casualidade”. Alvarenga faleceu oitenta e um dias após o 23 de maio, dia 12 de agosto, no Hospital Santa Rita em decorrência de outro tiro que recebera, em ocasião que nada tinha haver com a jornada cívica do 23 de maio. Era a primeira vitória Paulista, sua autonomia, custou caro, mas seria ainda mais custoso a reconstitucionalização do país. O 9 de julho o início de uma terrível guerra que foi necessária para dar ao Brasil uma nova Constituição, em 1934, a vitória!

A SEGUNDA PARTE SERÁ PUBLICADA EM BREVE

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